Crónica do Dia – A BONANÇA NÃO É PARA TODOS

A BONANÇA NÃO É PARA TODOS

Por Kant de Voronha

A vida já nos provou que a bonança não é para todos. Uns nascem e morrem a gozar todos os dias da sua vida. Esses não sabem o que é sofrimento. Nunca carregaram uma lata de água na sua cabeça. Todos os dias acordam com tudo pronto para o seu consumo. E assim vivem até que a morte os acolha no subsolo.

Os abonançados até esquecem que existem pobres. Tratam os seus empregados como se fossem objecto irrisório. Não se encontra cicatriz em seu corpo. Não conhecem o que é cobra. Nunca tiveram calos (makuma) nas mãos. Na sua maioria vivem do sangue alheio como se fossem parasitas.

Outros são os que nascem e crescem e morrem a sofrer. Nascem de forma dolorosa, sem o mínimo de sobrevivência; crescem ao Deus dará debulhando a sorte da natureza e morrem como piolho sem ter conhecido o que é bonança. Todos os dias comem as mesmas coisas caracata e folhas de mandioqueira. E se quiserem variar um pouco, servem folhas mandioqueira acompanhadas de caracata. A rotina é a mesma. Dormem no chão sobre os bambos (namathita) devorados por percevejos. Labutam energicamente nas suas machambas durante o ano, mas alimentam-se mal e ficam com anemia grave que culmina com desnutrição crónica.

Outros ainda são os que nascem no sofrimento, crescem nele mas depois de se livrar disso esquecem o berço de onde vieram. Sobem na vida e odeiam até os seus progenitores. Consideram-se da classe média. Intocáveis e sem condições para vizinhança no bairro. Esses são os que mais sofrem por dentro. Vivem de aparências para agradar aqueles que nasceram para a bonança. Para investir na sua arrogância cometem dívidas dum canto ao outro do planeta e semeiam inimizades com os credores.

As três classes de sobreviventes da humanidade são iguais depois da consumação da vida terrena. Nasceram de mãos vazias e voltam para a terra de mãos vazias. Porém, uns estarão no caixão e outros embrulhados numa esteira. Mas os dois irão para a terra de onde vieram. Por isso a Bíblia nos recorda que somos pó e do pó voltaremos. E mais não disse!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *