A CHUVA LEVOU A MINHA CASA

A CHUVA LEVOU A MINHA CASA

Por Kant de Voronha

Grande parte de habitações que há na cidade de Nampula é de construção super precária. Encontrámos casas de pau a pique; casas de Adobe; casas de caniço; casas de capim; casas de chapa de zinco, etc. Todas elas estão cobertas de capim também embora a sua parede seja de capim.

É uma situação deveras deplorável em ocasiões como estas quando cai muita chuva. Pois, como são casas cujo teto é compartilhado pelos ratos facilmente furam a cobertura. A água da chuva penetra sem sacrifício. Não se trata de pingos de chuva. Não. Trata-se, sim, de chover a valer.

À medida que a água molha a parede aos poucos ela coroe-se criando crateras que propiciam consequente queda e destruição de toda casa. Neste momento que vos falo várias famílias estão na iminência de perder suas casas sob risco de ficarem com apenas bambos amontoados enquanto a insónia depena os proprietários. Perde-se a casa, perdem igualmente os bens que acumulam ao longo do tempo.

Passando pelos bairros periféricos da cidade de Nampula, os meus olhos surpreendem-se com um cenário miserável. Se por um lado a lama inunda os pátios e ruelas, por outro lado, os charcos e águas imundas reproduzem mosquitos e condições favoráveis para diarreias.

Muitas casas estão caindo diariamente. É uma situação de todos anos. São famílias que estão vivendo na cidade só de nome. Melhor não seria voltar para aldeia?

Nesta época chuvosa falta-lhes tudo. Casa para dormir, comida para os filhos, roupa para vestir e cama onde reclinar a cabeça.

É importante que estejamos atentos a quantos sofrem ao nosso lado. Mas também é importante que os sofredores reconheçam não ter condições habitacionais para continuar a insistir a cidade.

Na manhã de ontem, debaixo de intensa chuva fiz-me ao bairro de Muthita. Vagueei por dentro e calhei numa casa de desalojados. A única gruta de capim que restava a chuva tomou conta. Pais e seus filhos sentados debaixo do cajueiro lamentavam o fato de não haver socorro urgente.

Perguntei ao homem, de nome Rafael Sinsiva, porque se sentavam debaixo da chuva. Carregado de lágrimas nos olhos, disse: “a chuva levou a minha casa”.

Afinal de contas, no tempo seco a casa de Sinsiva também era precária, quase a cair. A chuva apenas concluiu o trabalho iniciado. Faltou atenção e o resultado não tardou. Situação igual apanhei no bairro de Murrapaniua e Namutequeliua. A próxima escala será Namicopo e outras artérias. Mas o nosso povo está sofrer mesmo. O fumo que há lá dentro é insuportável. Mas é aí onde dormem e fazem mais filhos. E mais não disse!

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