A EPIDEMIA DA FOME

Pedro Cusse

Fome, quatro letras que traduzem a necessidade básica do corpo humano que para ser saciada e manter o esqueleto em pé precisa denutrientes suficientes.

Hojeos dados da central sindical dos trabalhadores moçambicanos, publicados em 2020 dão conta que 23% dos moçambicanos não tem emprego, o mesmo documento revela que 32.7% da mão-de-obra trabalha no sector privado, 23.3% no sector público e 39.5% no informal.

Pessoas que vivem em meio a situação de extrema pobreza,continuam na incerteza de não ter uma refeição adequada no seu prato. Os piores cenários estão nos povoados, localidades e distritos, onde famílias que para alem de lutar com vários problemas como a falta de água, alimentação condigna e sem muitos recursos, enfrentam a covid-19. Trata-se de vidas que diariamente se vão e parecem estar invisíveis para os olhos abertos de quem de direito.

É sexta-feira, o sol nasce e ilumina a província de Nampula com ele nasce mais um dia banhado em incertezas, e para os mais velhos o novo dia significa a renovação de esperança de um dia melhor.

O ar bucólico do campo, foi substituído por um ambiente seco, a cor avermelhada da terra denuncia a ausência das chuvas.

Quanto mais a Radio Encontro aprofunda o interior desta província, a equipa de produção da reportagem da semana se depara com o ambiente de miséria absoluta misturado com uma realidade cruel de cortar a respiração.

Flagrantes de morte causados pela fome extrema, tem sido relatados entre os quatro ventos.

O distrito de Murrupula possui 48.988 habitantes. E a semelhança de vários distritos da província,que tem um dos piores índices de desenvolvimento humano ao nível da zona norte do país.

Nestes locais o autoempregoé a única alternativa para muitas famílias, que vê na machamba o único meio de dar sustento aos mais novos.

Machambas cuja tao esperada colheita encontra-se comprometida devidoas chuvas que recusam em cair um pouco por toda a província de Nampula.

Nas comunidades por onde a Rádio Encontro passou, vozes clamam em uníssono pedindo ajuda, pois, são crianças, mulheres e homens que passam fome diariamente, sem alternativas. As nossas fontes contam que para manterem o esqueleto em pé, recorrem a folhas de mandioqueira e a sua maneira passam as suas refeições.

Outra alternativa, são os frutos do capim “ Namuhekereke”, que esta a ser o pão de cada dia nessas comunidades.

Primeira paragem é na vila sede do distrito de Murrupula, onde fomos recebidos pela vovó Angelica Mululiua.

Ela têm um olhar triste que guarda a preocupação sobre sua neta de 1 ano e meio que foi diagnosticada com desnutrição cronica marasmo, a cada dia um desafio,conseguir alimentar a neta e sua filha diagnosticada com HVI.

O celeiro da vovó de 73 anos está vazio e diz não saber como alimentar a neta com nutrientes necessários para cura-la da doença causada pela fome que a aflige.

Tao bela, sensível e franzina a pequena Precita interrompe a nossa conversa com um choro, não se sabe se é um pedido de socorro ou se é pela doença, mas,uma certeza escancarada reside nesta família, a falta de recursos. ʺ quando vou ao hospital mandar a minha neta dizem que a criança tem que comer bem, dar a ela comida que tem bom nutrientes para mante-la forte. Mas eu não tenho como ter estas comidas que o médicos nutricionistas tanto falam, porque para alem da situação da minha neta nos aqui em casa não temos nada para comer, estou mal, muito mal!ʺ disse a disse vovó angelica cuja a fome e preocupação não lhe permite ter uma aparência simpática.

Com voz trémula, vovó Angelica faz um grito de socorro.ʺ estou a pedir ajuda do governo, peco pelo menos um saco de farinha e outros mantimentos para ver se minha neta melhora desta doença que roí em silêncioʺ clamou

O responsável de nutrição no centro de saúde de Murrupula- Sede, Fernando Pascoal, disse que a situação de desnutrição cronica de vários tipos tem aumentado de forma assombrosa afectando na sua maioria crianças, provenientes de famílias pobres.ʺ actualmente o distrito conta com muitos casos de desnutrição de vários tipos com; marasmo, cuachacol , entre outros tipos e isto nos como saúde nos preocupa são números que significam que ainda há vários trabalhos por se fazer, e necessário conscientizar a população em matérias de obtenção e conservação dos alimentos ʺ explicou o nutricionista.

No ano de 2020 Moçambique constava na lista dos 16 países que correm risco de apresentar níveis crescentes de fome aguda, apontando novos recordes nos níveis de insegurança alimentar.

A situação é impulsionada por uma série de factores como os recentes episódios de intensificação da violência, deslocamento de civis e interrupção dos mercados e sistemas alimentares,Sem esquecer a situação de mudanças climáticas.

Na província de Nampula, milhares de famílias, sobrevivem da machamba, pois,é lá onde famílias muitas vezes volumosas, tiram a sua renda para garantir a saúde, alimentação e escola aos homens e mulheres do amanha. Com a queda irregular das chuvas esta renda parece estar a ameaçada.

É ha quinze quilómetros da vila sede de Murrupula, na pacata comunidade de Umwatho, onde encontramos históriastristes de vidas perdidas por causa da fome.

Relatos dão conta que por aqui é normal que as pessoas passem dias sem aquecer dedos com uma alimentação condigna.

Alimentando-se apenas com base nas folhas de mandioqueira cozida, sem quaisquer ingredientes, o qual e chamado de Muarya-Muarya.

Nesta cortina de poeira há relatos de registo de casos de anemia e outras doenças atípicas da região, mas que se acredita que sejam provocadas pela fome. ʺ estamos a sofrer, os corpos das pessoas estão a encher de forma estranha, as caras dos estão concidadãos estão a ganhar uma aparência branca e pode ser consequência da fome na sua fase mais aguda ʺ disseram os populares

O nutricionista local Fernando Pascoal considera que a alimentação monótona com base em folhas de mandioqueira e outras variantes de alimentos não nutritivos pode causar vários tipos de doenças ao corpo humano. ʺ o governo tem que intervir na disponibilização dos alimentos este é o nosso prato forte porque quando as pessoas vem ao centro de saúde diz que alimentação dela é farinha de base na mandioca e as folhas, então alimentação deste traz muitas doenças. Então governo trabalhar junto dos nutricionaistas para garantir os alimentos ʺ exclareceu.

A poucos metros mais afrente encontramos uma senhora sentada por baixo de uma árvore frondosa. Chama-se Adelaide Cotoca cuja memoria roubou-lhe a lembrança dos seus anos de vida.

Adelaide esta sem voz, mas, faz forca para falar da sua maior preocupação.ʺ Estamos a passar mal por causa da fome. Para conseguirmos nos alimentar agente cozinha ntikwa sem quaisquer ingredientes, não tem homem, mulher ou criança. Todos estão a ficar anémicos devido a péssima alimentação. Os nossos corpos estão a ficar inchados. dia passa ouvimos registo mais uma morte por fome, é lamentável e doloroso viver em condições que nos vivemos. Estamos a acabar em Murrupula. Pedimos socorroʺ clamou a senhora Adelaide em um tom de voz perfurante.

Enquanto uns vivem padecendo de alguma doença originária da fome, outros sem alternativa morrem a fome como sãos casos do irmão e tio do jovem Amido Sabonete que não resistiram a forca torturante da fome e acabaram morrendo dentro de casa naquela comunidade pobre e isolada do réguloM’pwata.ʺEu perdi meu irmão e meu tio e seus corpos foram a enterrar a duas semanas atrás. Estamos mesmo a morrer de fome. É triste o que se vive aqui no distrito de Murrupula ʺ disse a fonte que precisou de auxilio do lenco de sua esposa para secar as lagrimas de tristeza

O líder comunitário local Ângelo Tiago Caciel confirmou a perda de 8 vidas humanas resultantes da fome e seca extrema que se vive na sua zona de jurisdição em apenas uma semana.ʺ confirmo a morte de 8 pessoas em apenas uma semana na zona sob minha responsabilidade eu acredito que este numero venha ser inferior porque tem zonas que ainda não trouxeram os relatórios. Pessoas não reclamavam de fome antes porque estas tinham um stock em suas casas, agora o cenário e desolador. Se você vai na casa, dentro só vai encontrar cama e panelas vaziasʺ disse o líder que aos prantos, o líder comunitário local faz um pedido especial ao governo no sentido de minorar o sofrimento do povo da sua comunidade. ʺ estamos peco ajuda ao governo pessoas de boa no sentido de nos ajudarem, há muitas pessoas padecendo de fome aqui em Murrupulaʺ

O governador da província de Nampula Manuel Rodrigues, disse que a desnutrição e fome é um mal que precisa ser ultrapassado de forma urgente. Tirando da cabeça  todos os mitos que giram em volta da alimentação.

Rodrigues recordou que a nossa província esta com uma taxa de 50% da desnutrição cronica nas crianças e mulheres gravidas segundo explicou, isto preocupa sobremaneira o governo. ʺ É necessário olharmos bem para questão da desnutrição, a desnutrição mata cuidemos das crianças e das mulheres gravidasʺ exortou o governante

Enquanto o governador da província faz apelos para se olhar para a questão da fome e desnutrição com muito carinho, o director provincial de agricultura e pescas de Nampula ERNESTO PACULI nega existência de bolsas de fome na província, afirmando de forma incisiva, que todos distritos estão abastecidos de produtos de primeira necessidade. ʺ oque nós estamos a dizer é que província de Nampula não tem casos graves de fome, oque existe são pessoas com pouco poder de compra, e existem pessoas que se calhar falham uma refeição ou outra mas, fome que fala de fome não existe porque os distritos de Nampula estão todos abastecidos, (…) bom, eu não posso precisar o que significa fome, mas na verdade, fome significa a existência de insegurança alimentar na sua fase aguda e que provoca morte, isto é o que se chama fome. Agora em Murrupula há morte?Se não há mortes então é a provincia de nampuala esta abastecida de produtos.ʺ esclareceu o director.

Este facto contrasta com a realidade que a equipa de produção da reportagem da semana se deparou no terreno.

Pois os celeiros dos mais pobres estão vazios, e sem nenhuma moeda no bolso para comprarem os sempre caros produtos de primeira necessidade.

Estessão apenas resquícios de histórias de fome que se repetem ao longo da província de Nampula. Onde famílias sem o mínimo de condições para a sua sobrevivência, sofrem caladas recorrendo alimentação pouco aconselhável para manter o esqueleto em pé, numa clara alusão que na luta pela vida tudo que é fervido serve.

Murrupula é apenas um exemplo de vários pontos da província onde pessoas com poucos recursos vivem em condições humanamente deploráveis, estórias idênticas se repetem emMuiti, Rapale,Monapo, Mossuril, Corrane, Murrupelane, e outros distritos onde por falta de dinheiro no bolso, as crianças, mulheres e homens vivem a Deus dará.

One Reply to “A EPIDEMIA DA FOME”

  1. É difícil acreditar no sofrimento do outro enquanto isso não afecta a minha vida!
    Sou moçambicano na província da Zambézia. Assim estou fora de Moçambique desde o ano 2019. Nos primeiros momentos quando coronavírus começou na China não havia nenhuma preocupação por quê não tem afetado o país me refiro de quênia e as coisas andavam normalmente até mesmo a questão de avisar para os que sofriam não tenha muito sentido. Mas no primeiro dia em que se reportou o primeiro caso do coronavírus todo o país estava a tremer de medo! E eu senti ossos a situação da covid 19 porque afectou a casa em que eu vivia e pessoalmente eu já conhecia a covid-19 não era uma brincadeira. Da mesma maneira, o diretor provincial da agricultura e pesca de nampula não pode reconhecer a existência da fome enquanto não estiver afetado. E como isso nunca vai acontecer ele vai continuar afirmar que não existe fome. é muito grave dizer que em Murrupula não está se morrer enquanto perdru-se 8 vidas por causa da fome! a vida e de uma pessoa é muito importante porque todos nós fomos feitos na imagem e semelhança de Deus! Eu não posso negar que tenham abastecido a província mas a questão é: à quem vão essas bens? Certamente esses bens vão para aqueles que não necessitam. E é por isso que temos um problema que nunca termina em Moçambique: os que têm continuam acumulando e os que são pobres continuam na miséria. A única coisa que devo dizer é de que vamo-nos apoiar se alguém tiver algo ajude o outro não será possível ajudar a todos mas cada um faça o que lhe caber! Muito obrigado pelas notícias assim me conecto com o meu povo. Tanzania

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