Crónica do Dia – A SOBERANIA RESIDE NOS DIRIGENTES!

A soberania reside nos dirigentes!

Por Bento Paua

Quando saímos a guerra para libertar o nosso país do jugo colonial, a verdadeira intenção era a de nos tornarmos donos do nosso país, sermos nós todos, como povo, a definir os nossos destinos. Conseguimos! Na proclamação da independência, na voz do nosso querido presidente Machel, voltamos a solidificar essa intenção; na aurora da democracia, em 1990, a nova visão e nosso sonho democrático tornaram-se mais reais ainda, pelo menos nas leis. Não sei ao certo onde traímos a nossa memória, se pela ambição de alguns, se pela ganância de outros ou pela falta de patriotismo. O certo é que estamos a cada dia mais distantes de realizar aquele sonho. Os donos do país continuam a ser os outros (poucos) e não nós todos como conjunto.

A “nossa pátria” que recuperamos dos escombros da guerra, já não serve mais o povo soberano. O poder de decidir que alguns têm é cada dia confundido com o direito e a primazia nos benefícios derivados do sacrifício de todos. É difícil dizer que os serviços do Estado servem ao soberano, o povo, quando este continua a ter uma função marginal, apenas a de votar. Enquanto enfermidades básicas e simples matam pessoas comuns, os dirigentes, os novos soberanos, dão a si mesmos o direito de assistência médica de luxo; enquanto o povo morre à fome, eles concedem a si mesmos regalias exorbitantes e subsídios de alimentação de reis, tudo a custa do povo; enquanto a dignidade do povo é colocada em crise pela falta de uma única refeição ao dia, eles conferem a si mesmos, dignidade, reservando-se ao direito de ter os mais altos salários; enquanto pessoas comuns a quem devia pertencer a soberania e, por isso também a primazia nas condições de vida digna têm péssima educação, péssimo serviço de saúde, péssimo meio de transporte, péssima habitação, péssima segurança, eles alocam a si próprios e em dobro, tudo o que falta ao povo.

Por falar em segurança, nunca Moçambique tinha tido maior número de homens no exército e na polícia, os melhores meios de defesa, mas ao mesmo tempo nunca o povo esteve tão inseguro. Que paradoxo! A quem realmente as nossas forças protegem! É doloroso ver um exército a proteger um só homem, um só dirigente quando o povo, sem segurança, sofre assaltos e assassinatos à luz do dia. É complicado observar uma frota de carros de luxo, homens devidamente armados, meios de coerção de última geração, tudo ao serviço de um só dirigente de um povo que sem segurança, vive à sua sorte, e se locomove com um sacrifício robótico.

Não quero questionar a autoridade dos nossos líderes, eles representam a nossa soberania. Mas penso que é altura de se reflectir sobre para quem esse poder deve ser exercido para não ser banalizado. O bom exercício político consiste no respeito ao soberano do Estado e este é o povo. Se não for para este, para quem mesmo os dirigentes exercem o seu poder? Já agora, em quem reside mesmo a soberania em Moçambique?

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