Crónica do Dia – AQUI TEM TRABALHADOR QUE FAZ TUDO!

Vá òkhala nanvarasothene

Por Deolindo Paúa

Educar as crianças é educar a sociedade futura. Por isso para criar o adulto que queremos é necessário dar à criança a educação correspondente. Há algum tempo que várias organizações lutam para eliminar a exploração infantil. Os direitos da criança são resultado dessa batalha. De facto, houve tempos em que as crianças eram mão-de-obra desejável. Alguns movimentos sociais impuseram o respeito à inocência das crianças, embora ainda haja focos dessas práticas condenáveis.

Conseguimos alguma dignidade para as crianças. O problema agora é sobre o equilíbrio que temos de estabelecer entre a exploração infantil e a libertinagem nas nossas crianças. É que há amor aos filhos que é escola de adultos folgados e preguiçosos. A criança tem os seus direitos. Mas esses direitos envolvem a aprendizagem sobre os desafios da vida do futuro adulto.

Num desses dias, quando o pai da dona Laura chegou a casa de sua filha na Cidade de Nampula notou que Kelvin, seu neto de 11 anos, tinha uma rotina resumida entre a televisão, o telemóvel e o quarto. Quando ele se insurgiu contra a vida ociosa do neto, sua filha apenas respondeu: “deixa ele, pai. Aqui tem trabalhador que faz tudo”. O que a dona Laura estava dizendo era que uma vez que existia um trabalhador, seu filho estava dispensado a qualquer actividade caseira. Só podia comer e dormir porque a mãe pagava para isso. Para ela, aquela atitude representa seu amor intenso ao seu filho, de tal modo que vê-lo fazendo alguma actividade, pequena que seja, representa um acto de violência infantil.

Infelizmente existem na nossa sociedade pais que desculpam a preguiça de seus filhos. Em nome do amor e do carinho os dispensam de todas as actividades. Despejam sobre eles os direitos da criança e os libertam dos respectivos deveres. Protegem seu ócio como se pudessem viver com eles para sempre, como se pudessem, no futuro, ser capazes de influenciar sua vida adulta resultante de uma infância ociosa. De facto, em muitas famílias, o combate a exploração infantil foi substituído pelo direito das crianças a tudo. A família anda segundo as vontades dos seus queridos filhos.

Explorar as crianças tem o mesmo efeito na fase adulta que mimá-las infinitamente. Ensinar as crianças a lavar a loiça, a cuidar de seu quarto, a recolher a loiça após a refeição, etc., não é violação dos direitos da criança. Pelo contrário, é ensina-la a encarar a vida com responsabilidade e a reconhecer os desafios da vida em cada faixa etária. Uma criança com direitos sem deveres pode ser um adulto fracassado.

As nossas crianças não precisam de violência para crescer, mas abandona-las ao sufoco de seus direitos apenas, pode ser a violência mais grave contra o seu futuro. E como se diz no adágio popular, dizer não a um filho, é também um acto de amor!

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