COVID-19: UM MAL QUE NOS ABRE HORIZONTES

COVID-19: UM MAL QUE NOS ABRE HORIZONTES

Por Bento Paúa

Desde a independência tornamo-nos numa sociedade de condições mínimas e de respostas provisórias para questões sérias. Inclusivamente constituímos governos sucessivos para dar resposta a crises e não para evita-las. Com nossos actos provamos de diversas formas que gostamos de viver em condições mínimas e que não nos sentimos merecedores de soluções efectivas e adequadas para condições máximas, por isso até nossas leis prevêem empreitadas de custos e qualidade mínimas.

O que despertou minha atenção sobre isto é o facto de o governo ter disponibilizado rios de dinheiro para a criação de condições (mínimas) nas escolas com vista ao retorno às aulas. Não é surpreendente a necessidade de criar urgentemente as condições nas escolas, não é preocupante a higienização às pressas e a intervenção de vulto nas escolas. Surpreendente é pensar que afinal de contas havia dinheiro nos cofres do estado para tal processo, para criar condições máximas, so que como estamos habituados a agir depois de crises, apenas não havia o problema, não havia vontade de faze-lo sem uma situação avassaladora real.

É surpreendente ainda notar que passamos muitos anos pagando orçamento mínimo na construção de escolas, de hospitais, com material sem qualidade, com tecto frágil, sem sanitários, com muito menos condições infra-estruturais sem possibilidade de higienização. Passamos anos com crianças ensardinhadas em péssimas salas, expostas a contracção de doenças por estarem em recinto inadequado para ter aulas. Passamos anos alocando somas de dinheiro a sectores que por egoísmo acrescentavam condições dignas apenas a aqueles que já tinham dignidade resolvida.

A chegada desta pandemia veio de novo provar nossa incompetência, nosso egoísmo e a nossa apetência de qualquerizar sectores importantes para o crescimento do país. Por aqui, a reabilitação de casas de luxo dos dirigentes é mais importante que a construção de salas dignas para as crianças; o aumento de subsídios e de regalias aos deputados é mais inadiável do que a construção de hospitais com equipamento dignificante, o aumento da frota de carros de luxo ao presidente e a reintegração dos ministros é mais imperiosa do que a garantia de transporte público de qualidade capaz de evitar a contaminação. Somos tão pobres que nem sequer sabemos ou fingimos não saber identificar o mais importante do menos importante. Somos tão pobres que ao ascender ao poder nossa visão reduz-se a nos, como se a riqueza de um so, o líder, fosse capaz de sustentar a sobrevivência de todos. Não é a Covid-19 que vai nos destruir, mas é a pobreza provocada pelo egoísmo doentio de nossos líderes que vai vitimar nossas crianças expostas em escolas propositadamente sem condições.

Se formos suficientemente maduros e conscientes, esta pandemia nos deixará uma lição boa e justa: a lição de que desde já, mesmo estando vários anos atrasados, precisamos de alterar o modelo da construção das nossas escolas e hospitais. Não podemos continuar a pagar altas somas de dinheiro pela construção de uma escola precária, sem água, sem sanitários. A nossa consciência sobre as crianças, sobre a educação e sobre a dignidade humana deve crescer e encarar o processo como projecto sério de construção do futuro. Não menos importante é a descriminação na qualidade de edifícios construídos para escolas e hospitais. Uma vez que somos todos iguais e queremos construir a unidade nacional, precisamos de uniformizar a qualidade das nossas escolas em todos os lugares deste país. Não pode continuar a haver um tipo de escolas (sem qualidade) para as cidades e outro tipo para o meio rural, como se o direito a condições dignas da educação dependesse do local onde se vive. Cresçamos com esta pandemia…

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