Crónica do Dia – AGORA BEBE-SE EM TODOS OS LUGARES

Por Deolindo Paúa

Há alguns anos que a forma mais usual de diversão na nossa sociedade é o consumo de álcool. Por hábito, sempre que um grupo de amigos se reúne para conversar, deve haver uma garrafa de álcool por ser partilhada. O álcool ingerido na medida certa é bom para a saúde e para sociabilizar as pessoas. Mas a preocupação começa quando nossa forma de ser e de existir fica dependente do álcool.

Agora bebe-se em todos os lugares. Bebe-se também em todas as circunstâncias. Bebe-se na alegria e na tristeza. Assim, por exemplo, o nascimento de um bebé numa família é motivo para consumir o álcool para comemorar; no falecimento de um ente querido também se bebe para diminuir a dor. No casamento diz-se é necessário beber para celebrar a constituição da nova família. No divórcio o álcool é usado como anestesia que diminui a solidão. Ainda outros bebem para esquecer que são pobres e desempregados. Assim vamos indo.

O problema começa quando nesse processo de celebrar ou descontrair alguém se perde no foco da vida e torna-se viciado. É isso que levou a exageros que fazem com que hoje a nossa sociedade seja dita como alcoólatra. É que até aqueles que por motivos culturais, profissionais ou religiosos não bebiam ou fingiam não beber, agora bebem publicamente e de forma vergonhosa.

O facto é que uma sociedade em que as pessoas estão ocupadas no álcool, não cresce. E, se formos a olhar para as nossas cidades, veremos que as coisas mais vendidas são as bebidas alcoólicas, mais do que a comida, a roupa e o material de construção. Até mesmo às portas de escolas, igrejas, mesquitas e universidades vende-se álcool.

Antes torcia-se para chegar o final de semana para se beber. Agora, porque em todas as esquinas e todos os dias vende-se álcool, bebe-se durante a semana laboral, até mesmo a caminho do trabalho. As consequências de tudo são óbvias. Profissionais bêbados faltam as suas tarefas ou as fazem sem perfeição exigível; motoristas bêbados ou com sequelas de bebida atropelam indiscriminadamente. Maridos ou esposas alcoólatras destroem seus lares; até há maridos que por beber não conseguem cumprir suas obrigações de marido, assim sucessivamente. A disponibilidade excessiva do álcool contribui em grande medida para estes desastres.

Entretanto, desde que por conta do coronavírus começou o controlo do horário e dos locais de venda de álcool, as nossas cidades conheceram alguma ordem e penso que isso se reflectiu também na economia familiar. Parece que agora bebe-se pouco, em casa e de forma responsável. Aparentemente voltamos a época em que se bebia apenas por lazer.

Que tal se as restrições sobre o horário de venda e, sobretudo dos locais de venda de álcool que adoptamos para o controlo da pandemia fosse o nosso modelo de vida? Que tal se o Estado ajudasse os consumidores de bebida a serem responsáveis, proibindo para sempre a venda de bebidas em locais públicos como ruas, escolas, bermas de estradas?

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