Crónica do Dia – COM TRIBALISMO NADA ANDA

Por Deolindo Paúa

Moçambique é um país de povos, de tribos. Felizmente nossa cultura conserva em nossa memória as nossas origens. Não podemos ignorar esse facto! Somos provenientes de uma tribo que temos de assumir e respeitar. Entretanto, desde que nos tornamos num Estado, nossos povos uniram-se e formamos, além da nossa tribo original, uma nova tribo, a tribo dos moçambicanos. Era suposto que como moçambicanos nos tratássemos como membros da mesma tribo. Mas nossos excessos culturais agravam nossa exclusão mútua entre povos e induzem a injustiças gritantes.

Em nome das nossas origens tribais e culturais, em nome das nossas regiões de origem não conseguimos construir um projecto nacional de justiça, de igualdade e de paz. Infelizmente há tribalismo e regionalismo em tudo.

Há tribalismo e regionalismo na política quando quem assume o poder quer atribuir os melhores cargos a quem é de sua origem. Há tribalismo e regionalismo nas instituições quando as contratações, promoções, bolsas de estudo são orientadas para gente que partilha a origem com aquele que manda. Há regionalismo e tribalismo nos bairros quando os vizinhos acolhem-se e se socializam melhor apenas com aqueles que são originários da sua terra. Até há tribalismo e regionalismo nas igrejas quando quem tem um cargo ou missão é imposto pela maioria de seus conterrâneos.

Um amigo contou-me que certa vez, durante as inscrições para a distribuição de redes mosquiteiras deparou-se com algo esquisito. Um secretário do bairro privilegiava a inscrição de pessoas oriundas da sua terra natal, deixando outras para o final. Para ele, seus conterrâneos tinham primazia sobre todos os outros a quem achava dispensáveis. Com esta atitude, veio-me a mente a forma como a nossa Administração pública funciona. Esta é lenta para os que “não são nossos” e célere para os “nossos”. Com o termo “nosso” refere-se, portanto, quem é família, conterrâneo e, por vezes a quem milita o mesmo partido que eu.

O modo como os benefícios são distribuídos é por via de conhecidos. Para ser rapidamente atendido no hospital, no tratamento do BI, no reconhecimento de documentos, no acesso a terra nas cidades, até para beneficiar de um emprego, é preciso ser conhecido. Fazemos uma administração de conhecidos. Os desconhecidos vivem e tratam as coisas à sua maneira. Que se virem!

Que país queremos construir divididos em grupos tribais que muitas vezes são incapazes de dar resposta adequada aos desafios da instituição, do Bairro, da sociedade ou mesmo da nação? Que país unido e de justiça social construiremos oferecendo serviços públicos de forma selectiva? Estamos condenados ao desaparecimento por causa das competições tribais?

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