Crónica do Dia – MAIS FINGIDOS E LONGE DA VERDADE

MAIS FINGIDOS E LONGE DA VERDADE

Por Kant de Voronha

Estamos desde o mês de Março lutando contra um inimigo invisível. Por três vezes, e pela primeira vez, Moçambique vivenciou o estado de emergência. Nunca ouve uma pandemia similar ao coronavírus que se tenha apoderado da nossa geração. É uma nova experiência e a história vai registar nas páginas do seu livro. As futuras gerações vão ler aquilo que acontece hoje.

E o que aprendemos em três meses de quarentena? Que lições ficam registadas? Como lidamos com esta situação?

Em primeiro lugar, vimos que não estávamos preparados mundialmente para uma calamidade deste calibre. A ciência também ficou surpreendida. Por isso se fala que morre-se aprendendo. Ninguém diz que já aprendi o suficiente. A vida é uma escola cujas lições aparecem a cada passo marcado.

Em segundo lugar, vimos que a obediência às normas e orientações é coisa fora do nosso alcance. Resultado disso, houve muita violência nos primeiros dois meses. Pessoas algemadas, esbofeteadas, os bens do povo levados tanto pela polícia de protecção quanto pela polícia municipal.

Em terceiro lugar, aprendemos que somos fingidos e longe da verdade. Me justifico. Em muitas ocasiões vimos uso de máscaras só para inglês ver. Ou seja, só para cumprir e não para evitar a doença. Na mente de muitas pessoas ainda prevalece a ideia de que o coronavírus de Moçambique é um assunto político. Talvez queriam ver enterros em valas comuns como resultado da pandemia, à semelhança do que acontece noutros países.

Ligado a isso, em quarto lugar, vimos oportunismo e burla crescentes. Por um lado, algumas pessoas despedidas nas empresas para voltar a trabalhar foram forçadas a pagar aos chefinhos que lideram os recursos humanos. Os que não tiveram condições para cunhar ficaram excluídos à sua sorte. Por outro lado, assistimos ao encerramento de barracas. Mas as fábricas de bebida alcoólica, os Botle stores e outros revendedores ficaram abertos e a vender as bebidas. Portanto, o negócio dos grandes não pode parar. O negócio dos pequenos sobreviventes foi obrigado a definhar. O mais agravante ainda, até a cabanga do bairro foi entornada, as cervejas confiscadas e bebida entre tubarões oportunistas.

Então somos mais fingidos. A sinceridade caminha longe de nós. Coronavírus ensinou-nos que não somos capazes de sensibilizar e educar o povo para ganhar confiança nas ordens dos dirigentes. Imprimimos o medo como forma de educação cívica. Mas o medo não edifica; ele deforma porque nos faz fingidos e longe da verdade. E mais não disse!

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