Crónica do Dia – NÃO SEI QUEM VIVE NO OUTRO LADO

Nkimmusuwela onkhala wíthela

Por Deolindo Paúa

Em tempos de boas sociedades, pessoas vivendo no mesmo bairro eram família. Vizinhança era partilha de ideias, de conselhos, de bens, de carinho, de dor, e até mesmo partilha na educação dos filhos. As dores de uma casa eram de toda a vizinhança, as festas de uma família eram comunitárias, por isso convites eram dispensáveis.

Os quintais eram trancados apenas de noite para evitar ataques de animais selvagens. Por vezes, os quintais eram dispensáveis porque os vizinhos garantiam segurança e protecção mútua. Nenhum ladrão era capaz de se impor a uma vizinhança unida.

Hoje tudo mudou. Não sei com precisão onde as coisas mudaram. Mas é fácil perceber que o desenvolvimento económico tem-nos conduzido para o lado errado da felicidade. O esforço que cada um faz para se tornar dono de si mesmo levou a perda da familiaridade e a abolição da vizinhança.

Agora pessoas vivendo no mesmo bairro, umas ao lado das outras, desconhecem-se. O vizinho já não é auxílio, nem família. O vizinho tornou-se um fardo, pior quando é pobre. As festas de família transformaram-se em eventos reservados a pessoas mais chegadas sob o olhar dos vizinhos. Os funerais do vizinho são participados apenas para fazer de contas e não para partilhar a dor do vizinho.

Aliás, o vizinho chega a ser entendido como apenas um inimigo com quem se disputa os limites do terreno. Por isso, os muros altos são erguidos não apenas para combater a insegurança, mas também para evitar as intromissões do vizinho. Já é normal, ao perguntar alguém sobre quem vive ao seu lado ter como resposta: “partilhamos o muro, mas não sei quem vive no outro lado”.

Se o desenvolvimento económico leva-nos a ignorar a existência dos outros estamos no caminho errado. Nossa vida foi feita para vivermos juntos. Viver ao lado dos outros e com os outros é o ideal da vida humana.

Com a desculpa de protecção e segurança erguemos muros de cimento e destruímos muros mais sólidos feitos pelo afecto dos vizinhos.

Para estarmos mais seguros, não precisamos de muros tão altos que sufocam aos vizinhos ao mesmo tempo que transformam nossas casas em cadeias. É compreensível toda a tentativa de criação de segurança nas nossas casas, mas vizinhos tão chegados e verdadeiros continuam a ser a garantia plena da nossa segurança como seres sociais.

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