Crónica do Dia – NOSSOS GATUNOS DE ESTIMAÇÃO!

Quando o falecido jornalista e cronista Juma Aiuba entrou na disputa sobre a extradição de Manuel Chang, propôs que ele preferia que Chang fosse extraditado para Moçambique. A razão fundamental com que ele justificava essa ideia era de que em relação às dívidas ocultas, todos os moçambicanos envolvidos eram “nossos gatunos de estimação”. Não tenho a pretensão de “ressuscitar” Juma Aiuba. Até porque Deus, com a sua “mania” de saber tudo e escrever recto em linhas tortas, sabe porque o levou tão cedo. Quero apenas, ao mesmo tempo que confesso a minha saudade, mostrar que ele tinha razão. Tinha razão em relação ao facto dos gatunos que temos serem da nossa estimação.

Nossa história como moçambicanos não é tão gloriosa quanto parece no que diz respeito a nossa aversão a criminosos. Habituámos a conviver e a confiar em pessoas desonestas. O nosso conformismo e falta de cidadania faz com que nossas opções de vida sejam de convivência com desonestos. Escolhemos viver com gatunos. Penso que realmente são da nossa estimação. Desde as nossas casas habituamos a proteger nossos filhos com comportamento desonesto, em nome do amor. Por vezes até temos amigos que sabemos da sua conduta contrária à lei. Não estamos dispostos a educa-los nem a colaborar para que as autoridades as eduquem. Nos bairros da cidade de Nampula a criminalidade é alta, ladrões e agressores aumentam. Muitos sabem quem eles são. Conhecem o comportamento marginal de seus vizinhos. Conhecem a má conduta de adolescentes que desde a tenra idade envolveram-se em más companhias consumindo drogas. Conhecem jovens que possuem bens de luxo sem terem trabalhado para tê-los. Mas ninguém fica preocupado em investiga-los, nem em entregar as autoridades para educa-los como a lei manda.

Esta situação de proteger criminosos começa mesmo de casa, com os nossos filhos, chega ao bairro e mais tarde afecta o nosso comportamento social e político de apatia. Os roubos ao erário público não são de hoje. Desde a independência conhecemos dirigentes desonestos. Conhecemos pessoas que ficaram ricas sem prova de trabalho feito. Conhecemos grupos partidários aliados a corrupção e ao saque ao erário publico. Sabemos que a política genuína não torna ninguém rico porque é um serviço à pátria. Mas quando de repente vemos dirigentes enriquecerem porque assumiram um poder, seus filhos tornarem-se milionários de repente, suas esposas tornarem-se empresárias, ao invés de denunciar, repreender, os elogiamos, os protegemos e, pior ainda, continuamos lhes dando poder. Se os nossos líderes continuam ligados ao roubo e a corrupção e ainda confiámos-lhes poder, então sim, são nossos gatunos de estimação! Apesar do que fazem, do prejuízo que nos causam, gostamos deles porque são nossos. Estamos a dizer que aguentamos a miséria que eles nos causam. Estamos a admitir que podemos viver na miséria desde que eles enriqueçam. Estamos a dizer que não importa o que eles façam, não vamos agir porque são nossos gatunos de estimação!

Por Deolindo Paúa

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