Crónica do dia – O RAPAZ DE CABELOS SUJOS

Por Delfino Baptista

Enquanto vivemos, vemos e ouvimos coisas que, até certo ponto, nos fazem pensar que seria melhor se o mundo não fosse o que é. Vemos e vivenciamos experiências que deixam enfraquecidos os nossos modos de pensar o bem do nosso futuro. Aliás, todos somos diferentes uns dos outros. Enquanto uns pensam na edificação dum mundo feliz e nobre, outros, porém, pensam em criar danos enormes neste mesmo mundo.

Daí que encontramos pessoas preocupadas na prática de actos macabros dentro da sociedade onde estes se dizem ser filhos.

Foi assim que passando pela feira de Munhoca, vi e ouvi um senhor que gritava dizendo “socorrooo! Amigos e irmãos, peço socorro! Ajudem-me, por favor! Chegou na minha casa um jovem de cabelos sujos e compridos e, ao sair de lá, roubou-me meu rádio e panela de barro”.

Ouvi e entendi. Então comecei a pensar em inúmeros jovens e adultos de cabelos compridos que conheço. Compreendi, portanto, que há características que nos confundem. Se aquele velhote o olhou somente naquelas aparências, era capaz de concluir que todo o rapaz de cabelo sujo e comprido lhe roubou o seu rádio e sua famosa panela de barro.

“A vida não está fácil. Um jovem rouba panela de barro? Estamos mal!” Dizia uma vendedeira de otheka, sorrindo dessa cena que lhe parecia um filme mal ensaiado.

Infelizmente, a senhora sorria sem saber que o referido rapaz era o seu namorado. Minutos depois ouviu um barulho forte de gente que dizia: “levem-no ao encontro da pita, ela está lá vendendo otheka”.

Quando a senhora viu e ouviu o que se dizia, caiu mortalmente morta de vergonha. “Afinal, tu tens a coragem de roubar na casa de um velho como este? Este rapaz de cabelos sujos e compridos não merece viver com gente como eu”.

Todos sorriam e rebentavam com gargalhadas ao ver aquela senhora que namorava com um ladrão sem o saber. Porém, ela mesma lisonjeava-o antes da revelação da coisa. Na verdade, muitos gatunos convivem connosco. Casam nossos familiares; aparentam ser boas pessoas; disfarçam-se de bons amigos, etc. E mais não disse.

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