Crónica do Dia – O VENENO DO DOUTORISMO

Esenya y’etothotoro

Por Kant de Voronha

Todo mundo quer ser doutor. Aqueles que se formam e terminam nas universidades do nosso país, e não só, os licenciados gostam e amam ser chamados de doutor. Quando alguém se esquece de os chamar dessa maneira, há quem zanga e se vinga. “Eu não sou João. Diga Doutor João. Não tem respeito nem?”.

Realmente, este veneno entra até nas nossas casas onde vivemos. Não sei qual deverá ser o remédio para estancar este mal. Mas será que é mau ser doutor? Absolutamente não! O mal está no uso indevido desse nome. Depois da licenciatura há o grau académico de Mestrado e só depois dele é que vem o verdadeiro Doutoramento. Entretanto, não é doutorismo.

O doutorismo aparece como uma mania, ou veneno, como doença, pelo desejo inequívoco de ser tratado por doutor mesmo sem ser doutor. No mundo actual há exageros que se constituem em doenças incuráveis. O desejo doentio de ser doutor mata de orgulho a muitas pessoas. Vamos partilhar uma experiência muito fresquinha.

Dois jovens do bairro de Mutauanha, Rogito e Macial, deram-se cabeçadas sangrentas até pararem no leito do hospital. Tudo começou na disputa oral pelos títulos académicos. Rogito é formado em Filosofia pela Universidade Pedagógica. Uma vez graduado em 2016 ainda não conseguiu emprego. Contudo, o seu vizinho Macial tem apenas 7ª Classe do sistema nacional de Educação. Ele abandonou a escola em 1999 por falta de condições económicas. Em 2010, Macial ingressou numa formação de serralharia no seu bairro. É fruto desse curso que ele ganhou um título que lhe dá pão de sobrevivência e lhe dá mérito no Bairro. Ele é chamado Mestre Macial. Essa designação dói muito para Rogito, pois considera que Macial é chamado de Mestre mas indevidamente. Ele que fez Filosofia em 4 anos não é Mestre. E por que um simples Serralheiro formado no Bairro de Mutauanha pode ser considerado Mestre? (Risos)

Parece uma piada, mas é realidade. São muitos os jovens que lutam por títulos e não lutam em demonstrar trabalho de qualidade. Naquele caso de Rogito e Macial, por exemplo, o serralheiro sobrevive do trabalho que realiza diariamente. Por seu turno, Rogito com a sua Filosofia da UP não consegue nem 10 meticais para apanhar chapa cem. Portanto, não adianta intitular-se de doutor, vestir casaco preto e camisa branca com uma gravata extravagante, de mãos limpas e intocáveis, enquanto não sabe fazer nada. As lições aprendidas na escola ou na Universidade devem levar a pessoa a reinventar a sua vida e não cruzar os braços com uma multidão de teorias que preenchem sua cabeça. O veneno do doutorismo mata a muitos preguiçosos.

Um verdadeiro doutor não é cheio de si próprio, não morre de orgulho. Pelo contrário, procura aplicar os seus conhecimentos no trabalho de cada dia lutando pela sua sobrevivência. Sim. Cada um pode ser doutor na sua área onde tem domínio prático. Mas se não sabe nada do que aprendeu, não serve para nada o seu doutoramento. E mais não disse!

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