Crónica do Dia – OS TABUS DO NOSSO TEMPO

No mosaico ético/moral da cultura macua, existem os conceitos Mwikho e Nlavi.

Nos nossos dias, tabu tornou-se coisa arcaica que se deve combater a todo custo. Programas moralmente televisivos são tratados com o atractivo publicitário “sem tabu”. Mas façamos algumas perguntinhas: Já não existe o tabu? O tabu é realmente um mal social que se deve combater? O tabu não tem nenhum valor educativo? Mas o que é o Tabu na cultura Macua?

O taburefere-se a qualquer acção, comportamento ou conduta de imoral ou antiético, que, por isso mesmo, não se deve fazer. Ou seja, tudo o que seja moralmente detestável é Tabu. Por exemplo, é Tabu a relação incestuosa, insultar ou bater sua própria mãe, engravidar a mulher com bebé menor, roubar num lugar de culto, insultar a uma pessoa mais velha, dizer palavras indecentes em público, casar com a própria filha, etc.

Por sua vez, Nlavi seria um evento ou fenómeno que extrapola as leis normais da natureza. Por exemplo, quando avistamos pessoas já falecidas, uma galinha que falasse, encontrar um coco numa planta de piripiri, uma criança que estivesse a falar corretamente com um ano de idade, ou mesmo encontrar uma criança a conduzir carro ou a capinar na machamba.

Nlavi é também a conduta ou comportamento duma extraordinariedade indesejável e condenável. Por exemplo, seria nlavi engravidar e ter filho antes dos ritos de iniciação. É Nlavi quando se viola o tabu, ou seja, quando o homem consuma actos moralmente proibidos. Portanto, viola-se um tabu, realiza-se um Nlavi.

Para uma mãe seria Nlavi ser, de facto, insultada ou batida pelo próprio filho menor de idade, o que é proibido (Mwikho). Tanto os Mwikho como os Malavi visam disciplinar a conduta humana na família e na sociedade. Sabemos, por isso, que o Mwikho que proibia dormir com a mulher antes de desmamar o bebé, era para permitir uma natalidade mais espaçada.

Hoje, porem, parece que tudo é permitido. Já não há mwikho. Já não há nlavi: – sepulturas são vandalizadas em busca de cadáveres enterrados para lhes extrair órgãos; -ossos humanos são traficados para se ganhar dinheiro; – rouba-se nas igrejas e mesquitas; – dorme-se com um animal para se ser rico; – crianças assistem com os pais cenas de pornografia nas novelas.

Estamos a caminhar para um estado em que já não há Mwikho nem Nlavi. Tudo é permitido e nada pune nada nem educa a ninguém. A cultura vai sendo despida dos seus elementos de manutenção e autodefesa. O esforço de combater o mal moral (que era suposto com a ideia de Mwikho e Nlavi), esse esforço se vai esfumando. Mas, em contrapartida, continuamos a reclamar que não há valores morais na sociedade. A mesma sociedade que acha normal que equipas oficiais andem nas EP1 a ensinar crianças de 8, 9, 10 anos quais as melhores posições para não engravidar. Mwikho. Nlavi.

Mas, nenhuma sociedade sobrevive sem os seus Míkho e Malavi. Por isso se diz que a pedofilia é Mwikho, vender bebidas alcoólicas a menores de 18 anos é Mwikho, fumar em público é Mwikho. Enquanto vamos introduzindo estes Mikho modernos, vamos simultaneamente combatendo os Mikho tradicionais, apelidando-os de superstições. E mais não disse!

Por Kant de Voronha

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