Crónica do Dia – PAPÁ ONDE ESTÁ O PÃO?

Tithi eri wowi ephawu?

Por Kant de Voronha

Em várias passagens da Bíblia está bem explícito que “o trabalhador merece o seu salário” (Lc 10,7; Dt 24,15; 1Tim 5,18). Porém, apesar desta advertência, não faltam casos de instituições ou pessoas singulares que gostam de ver seus trabalhadores privados de seus honorários. A isso acrescentam várias justificações para aprovar suas motivações.

Neste momento que vos falo, pouco mais de 45 voluntários da Cruz Vermelha de Moçambique em Nampula estão zangados e de costas viradas contra os representantes da instituição. Trata-se de voluntários formados em Março do presente ano com vista a dar cobro a questão da cólera. Porém, com a eclosão da pandemia do Coronavírus foram espalhados em vários postos para trabalhos de sensibilização das comunidades incluindo pulverização de viaturas. Era suposto que cada um recebesse 250 MT por dia de trabalho, mas parece que o representante máximo não diz nada.

Uma carta de 2 de Setembro corrente, dirigida ao Secretário de Estado de Nampula, em nosso poder, no seu número 3 denuncia que o mesmo representante da Cruz Vermelha tem má conduta para com os voluntários, para além de “boicotar as informações, ser parasita e ganancioso”.

Muitos desses voluntários apesar de serem jovens deixam esposas e filhos em casa quando vão ao trabalho. E o regresso a casa, a expectativa dos filhos é receber pão das mãos de seu pai. Júlio Juliano é um desses voluntários que na semana passada voltou bem casado e de mãos vazias. O seu filho de 4 anos de idade pergunta com toda inocência: “Papá onde está o pão?”. Júlio ficou boquiaberto e com duas lágrimas que desciam dos seus olhos avermelhados de tanto suportar o peso do dia, a fome e o cheiro da máscara. Não tinha palavras a dirigir ao seu filho. É inocente. Ele não sabe que seu pai realiza trabalho da sobra, que não tem pagamento.

A situação de Juliano é similar de muitos outros que debulhando o calor e a dor de tanto trabalho, recebem como recompensa a humilhação, o desrespeito, a falta de consideração e até mesmo a fome diante de seus patrões com os quais se comprometeram e ajustaram pagamentos. E mais não disse!

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