Crónica do Dia – PASSEI O DIA COMENDO VENTO

Por Kant de Voronha

A vida é feita de contradições intermináveis. Enquanto uns nascem, outros morrem. Uns gozam de saúde outros estão enfermos ou moribundos. Uns festejando outros entristecidos. Uns vivendo em abundância extrema, outros na miséria imensurável. Uns muito inteligentes, outros sumamente nabos e ignorantes.

Celebrou-se no último sábado, o primeiro dia de Maio, a festa internacional dos trabalhadores. Pelos movimentos de compras tanto de roupas quanto de mantimentos, tudo indica que a festa foi de arromba. Mas não a foi para toda gente, houve quem passou o dia comendo vento. São histórias tristes e desumanas.

Rogério Mpunga é um de milhares de deslocados que tiveram que fugir de suas casas e aldeias deixando seus haveres em busca de asilo como forma de salvaguardar as suas vidas. Mpunga era um comerciante renomado. Ele tinha 2 lojas em Muidumbe, 2 em Mocimboa da Praia e 2 outras em Palma. Tudo isso foi queimado pelos insurgentes. Quando perdeu as lojas de Mocimboa pensou que iria assegurar-se com as de outros lugares. Mas a sorte não bateu à porta. Dois dos 10 empregados que tinha sobreviveram, mas os outros foram mortos barbaramente. A cada novo amanhecer, o homem chora sem querer.

Mpunga conta que saiu de Muidumbe em Novembro último juntamente com sua esposa e 8 filhos. Pela intensidade do terror não conseguiu levar nada para o seu sustento. Chegou e foi acolhido em Anchilo sem ter conhecido a ninguém. Entretanto, os primeiros 3 meses foi ajudado tanto pela Paróquia local quanto pelo governo do posto administrativo. Mas as ajudas esgotaram e nos últimos tempos tem-se empenhado nos trabalhos da machamba como forma de garantir comida para sua família. Não tem sido fácil porque trabalhar com enxada não era seu hábito. Agora as mãos endureceram e a coluna lhe dói. Com a queda irregular da chuva nos primeiros meses deste ano, foi obrigado a semear milho 4 vezes e não produziu quase nada.

Mpunga diz que passava a festa dos trabalhadores em pompa e circunstâncias em todos os anos. Mas agora tudo mudou. O que antes era festa, agora tudo é penumbra. Sua vida é escuridão. “Eu passei o dia dos trabalhadores comendo vento. Não tenho nada para me alegrar”, conta Mpunga tentando beber algumas gotas de lágrimas que caem do seu rosto enrugado. Situação similar passam muitas pessoas. E até quando a guerra de Cabo Delgado? E mais não disse!

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