Crónica do Dia – TRABALHAMOS MUITO, MAS CONTINUAMOS POBRES!

Por Deolindo Paúa

Por que motivo o moçambicano trabalha muito e permanece na miséria? Habitualmente diz-se que nossa pobreza é causada pela preguiça. Essa teoria já acompanhou uma governação de dois quinquénios inteiros. Na altura o respectivo presidente dizia em viva voz que éramos preguiçosos e que precisávamos de cultivar o espírito de trabalho para criar riqueza. Preguiçosos? Moçambicanos?

Bom, não sei ao certo quais são evidências desta teoria, mas quando me lembro do meio rural onde famílias trabalham o dia inteiro nas machambas, quando me lembro de jovens nas cidades que para ganhar a vida se submetem a trabalhos pesados como transportar sacos, cobrar nos chapas, vender debaixo do sol quente, servir em obras de construção, etc., trabalho que exercem durante o dia inteiro e todos os dias, me recuso a acreditar que a preguiça seja o motivo da nossa pobreza. Penso que o que nos empobrece é o uso que fazemos do que ganhamos.

É triste prestar um duro trabalho durante o dia para gastar o rendimento em coisas inúteis. Penso por exemplo em quem se esforça nos trabalhos agrícolas para depois de vender os produtos, gastar o dinheiro no álcool;

Nossa sociedade é pobre não porque nela as pessoas não trabalhem, mas porque nosso conceito de felicidade relaciona-se a gastos em prazeres materiais e passageiros. Os vários funcionários são exemplo disso. Esforçam-se, trabalham arduamente para gastar seu dinheiro em compras que lhes proporcionam uma vida aparentemente de luxo. Entre nós felicidade é o luxo e luxo é o álcool, as mulheres bonitas, a droga, o carro de último modelo, os churrascos, etc. Contando que essas necessidades sejam preenchidas o trabalho é suportado e se o salário não chega para pagar uma vida equipada com esse tipo de luxo, até dívidas insustentáveis são contraídas. O nosso sentido de riqueza está virado ao avesso.

Enquanto noutros países a riqueza é a criação de condições para ter uma alimentação adequada, uma assistência médica necessária, filhos devidamente formados e necessidades básicas resolvidas, no nosso país, a riqueza identifica-se com uma vida de aparências que estimula as pessoas a gastarem mais do que ganham no seu trabalho. É assim também que são educados os filhos. Para viver no aparentemente luxuoso. Não educamos nossas crianças a trabalhar para resolver um problema real. Educamo-las a gastar no fútil. Por isso, ao crescerem folgadas, são incapazes de fazer algo visível com o seu rendimento, querem continuar a viver impressionando o mundo. Esse processo acarreta custos que perpetuam a pobreza. Se queremos mudar, precisamos de redefinir o que realmente é essencial para a nossa vida. Sem isso, continuaremos cada vez mais pobres.

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