É hora de os partidos políticos escolherem que tipo de democracia querem para não ferir sempre a paz de Moçambique

Moçambique é um país marcado, por guerras, crises económicas e sociais e profundamente afectado pelas dívidas ocultas. Um país onde a maioria da população vive abaixo da linha média da pobreza.

O mês de Outubro é um mês que traz muitas alegrias para os moçambicanos, pois é neste mês que se celebra o dia dos acordos gerais de paz, assinados em Roma a 4 de Outubro de 1992, o acordo marcava o fim de um longo percurso de negociações.

Foram 16 anos intensos de destruição, mutilações e mortes. Para além de matar e semear traumas sociais até agora visíveis. Esta guerra, carregava o apelido de luta pela democratização de Moçambique.

Nos anos seguintes ao ano de 1992, o dia 4 de Outubro, tem sido marcado por festas, ruas inundadas de gente vestida de roupa branca, comemorando a paz, paz que até hoje 29, depois continua fraca, vulnerável e oscilante. Mês de Outubro para os moçambicanos deveria ser sagrado. Mas, estranhamente, é exactamente neste mês em que coisas que colocam em causa a paz acontecem.

Exemplos disso não faltam em pleno dia da paz do ano de 2017, Moçambique e o mundo testemunhou o assassinado do Presidente do Conselho Municipal da cidade de Nampula, Mahamudo Amurane. No mesmo mês, os Al-Shabab’s, dão cara pela primeira vez em Cabo Delgado, em plena campanha eleitoral. Em 2019 é assassinado em plena luz do dia, o activista social Atanásio Matavel.

Os casos acabados de mencionar, são exemplo de casos que ganharam destaque na imprensa estrangeira, e que até hoje causam curiosidade pois, a origem e os seus desfechos ainda mantêm-se no segredo dos deuses.

29 Anos depois da assinatura dos acordos de paz, Moçambique ainda vive crises internas como a junta militar da Renamo e o terrorismo de Cabo Delgado. Por aqui, a arma de fogo ainda é vista como chave para abrir a porta da riqueza.

Depois da morte de Afonso Dhlakama, os moçambicanos assistiram o nascimento de duas Renamos, uma liderada por Ossufo Momade, líder eleito em congresso, e Mariano Nhongo autoproclamado líder da Junta Militar daquela formação politica.

Desde a primeira aparição pública de Mariano Nhongo, vários ataques a civis eram atribuídos a ele, no centro do país.

Entre fugas e idas, a uma parte incerta, no dia 11 de Outubro de 2021, Nhongo foi abatido em combate, este é mais um homem que Outubro fez desaparecer.

Se por um lado há tubarões sanguinários que matam e pilham bens dos cidadãos que nada têm haver com os seus interesses particulares, existem por outro lado, uma elite de pessoas que dedicam mandatos inteiros em busca de uma suposta paz.

Estas pessoas são aquelas vestidas de terno estampado de pele de ovelhas, mas que nada tem a ver, pois, são pessoas em busca de uma página no livro da história de Moçambique.

Isto é perpetrado por pessoas a vidas de poder com discursos revolucionários completamente coloridos de ambição, com vontade enorme de ter uma casa na capital e tudo pago pelo pobre cidadão.

Para se alcançar a paz em Moçambique, foram necessários 2 anos de negociações para o alcance da tão sonhada assinatura do acordo. Para Joaquim Chissano, na época Presidente da República de Moçambique, aquela era a inauguração de uma nova era, pois, para ele, era o acordo que colocava fim a guerra.

Para Afonso Dhlakama, o acordo de paz, representava a substituição da luta armada pela luta politica democrática.

Nesta cortina de poeira, vários acordos de paz, ameaças de dividir o país, mortes no centro, ataques militares e interrupções de livre circulação de pessoas e bens, fazem a história política de Moçambique, 29 anos depois dos acordos de Roma.

Depois da morte de Dhlakama, Ossufo Momade tomou as rédeas do partido, na mesma senda mais uma vez, foi assinado o acordo de paz e cessação de hostilidades. Nas vésperas das eleições um grupo de militares rebelou-se contra a liderança do partido, e decidiu trocar o conforto das cidades grandes pelas matas onde supostamente semeava terror e luto. 

Para os académicos Felizardo Pedro e Arcénio Cuco, a vida da paz em Moçambique não está saudável, e apontam a harmonia e as desigualdades sociais, como estando por detrás das noites mal dormidas.

Depois de dois anos de instabilidade no país, devido ao não reconhecimento dos resultados eleitorais de 2014, em Agosto de 2019, a Renamo e o governo moçambicano, assinaram o acordo de paz e cessação de hostilidades em Maputo, como resultado das negociações entre Afonso Dhlakama e Filipe Nyusi. Alguns dias depois, a paz ficou ameaçada.

O cientista político, Arcénio Cuco, defende a necessidade de os moçambicanos adoptarem o espírito de boa convivência e fazer um estudo sobre o que está a falhar para que o processo de pacificação de Moçambique não tenha sucesso.

Cuco disse ser necessário que os moçambicanos abandonem o espírito de violência que vive no coração dos moçambicanos.

Na maior parte dos acordos realizados em Moçambique, foram feitos nas vésperas das eleições. “Que tipo de mensagens os líderes querem passar ao seu povo?”

Felizardo Pedro disse igualmente que é hora de os partidos políticos escolherem que tipo de democracia querem, pois o actual acarreta custos que serviriam para a construção de salas de aulas e furos de água, para o bem das comunidades.           

Enquanto o país celebra 29 anos da assinatura dos acordos gerais de paz, alguns dirigentes não vê razoes de alegria, exemplo disso é Manuel de Araújo, Presidente do Conselho Municipal de Quelimane, que disse no âmbito das celebrações do dia 4 de Outubro, que Moçambique ainda está muito longe de viver a paz genuína, tanto no centro e norte.

De Araújo disse que a paz não se resume apenas no calar das armas. Segundo fez entender o autarca, não se pode falar de paz e reconciliação nacional sem que haja justiça.

Manuel de Araújo disse que crimes como aqueles que vitimaram o então Presidente do Conselho Municipal da cidade de Nampula, Mahamudo Amurane e o músico Max Love, colocam em cheque a tão desejada paz pelos moçambicanos.

Paulo Vahanle, Presidente do Conselho Municipal de Nampula, disse que os 29 anos do AGP, são resumidos em sofrimento, por que a paz não se faz sentir, perseguições de quem pensa diferente continuam em alta sem deixar de lado a questão da pobreza.

Vahanle voltou a pisar na mesma, o assassinato bárbaro em pleno dia da paz, de Mahamudo Amurane como sendo autêntica ameaça a paz, e questiona a existência da paz em Moçambique.

Paulo Vahanle aponta a união como sendo um pilar que manterá a paz firme e inabalável.

O governador da província de Nampula, Manuel Rodrigues Alberto, disse que este é o momento de os jovens pensarem sobre a possibilidade de se distanciar para que não sejam recrutados para engrossar as fileiras dos terroristas.

Ossufo Momade, Presidente da Renamo e Filipe Nyusi, Presidente da República de Moçambique, apontam desafios que a paz enfrenta em Moçambique.

Os munícipes em Nampula são unânimes em afirmar que a paz em Moçambique está gravemente ferida, e há necessidade de haver uma rápida intervenção para que a situação seja minimizada.

A estas opiniões dos nossos munícipes, levam a um único pensamento, de que estamos em Moçambique, a terra dos acordos gerais de paz. São acordos a seguir de acordos que na sua maioria não produzem os reais frutos.

Por Pedro Cusse

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