Crónica do Dia – FILHO NÃO ME BATER NA BUNDA

FILHO NÃO ME BATER NA BUNDA

Por Kant de Voronha

Lutar pela sobrevivência é o dia-a-dia de muitos moçambicanos. A maioria do povo desta terra não tem estoque armazenado para comer sentado em casa. Cada novo raiar do sol, o povo acorda já prontinho para ir a luta. Não tem armas prontas para disparar. Não tem certeza do que vai encontrar para alimentar-se e suster os seus filhos.

Não é questão de comida apenas. É todo um conjunto de necessidades básicas para viver dignamente ou ainda para sobreviver. E as nossas famílias são numerosas. Cada criança quer viver da melhor maneira possível. A comida, a roupa, a cama, os sapatos, a escova de dentes, o lençol (mukhumi), o celular, o televisor que cada um dispõe é fruto da luta de cada dia. E se as pessoas não forem a luta tudo isso não existirá.

Entretanto, vezes sem conta já vi oportunistas que se apoderam do ganha-pão de cidadãos pacatos sem pensar em quantas pessoas estão prejudicando com aquela mercadoria (marotta). É, deveras, doloroso; é desumano. Mas é isso mesmo que mais acontece.

Não é coisa de longe, nem de muito tempo. Uma senhora foi encontrada a vender pele de cabrito cozida. Aí na banda é saboroso esse tipo de caril tanto para os bêbados quanto para acompanhar a caracata. Quando chega Mahindra os outros fugiram. Aquela senhora não se aguentou. Com a sua panela de 15kgs, toda ela rabugenta talvez o seu corpo pode chegar a 120 kgs só ficou a acertar a máscara para amainar os ânimos. Depois de dois golpes no colo disse: “Filho, não me bater na bunda”.

Aquele agente que estava com capacete preto e todo ele irreconhecível tirou seu capacete e perguntou: “eu sou teu filho? Repara-me bem, repara-me”. De seguida, ofereceu 10 chambocos nas bundas daquela coitada pobre e a panela de pele de cabrito foi conservada com carinho naquele carro famoso.

A senhora de bundas coroada de dor, já não conseguia locomover-se. Passou um taximota no qual se pendurou até sua casa, no Piloto. Hoje é o terceiro dia e a senhora Samira mal consegue sentar-se.

Em plena semana em que celebramos a independência do país somamos desindependências. Somamos atitudes violentas e agressivas. Depois de coronavírus passar, de que é que nos lembraremos? Continuaremos amigos e familiares? Continuaremos como concidadãos? Porque tanta violência aos indefesos? Porque? E mais não disse!

2 Replies to “Crónica do Dia – FILHO NÃO ME BATER NA BUNDA”

  1. As pessoas mal se recordam que saíram de uma família e nem pensam que têm família pobres, quando estão no famoso Mahindra são verdadeiros deuses da terra, não interessa quem está por perto eles só vivem como se o mundo fosse deles. “E mais não disse”.

  2. Os Mahindras são do tipo korunmwa korunmwaru ( fui mandado e devo fazer) e nesse sentido eles fazem exageradamente, poucos são fiéis ao seu trabalho, porém, existem famílias que quando são feitas essas coisas dependendo daquele negócio a vida fica arruinada porque há um que lhe levou o negócio é sentimental. “E mais não disse”.

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