Crónica do Dia – MAIS UM DIA DESIGUAL

MAIS UM DIA DESIGUAL

Por Kant de Voronha

Os dias passam. Os casos positivos de Coronavírus aumentam. Apesar disso, os violadores das regras de convivência social que regulam o travão da propagação desta pandemia não faltam.

Se há um dia que faz falta para algumas pessoas é a sexta-feira. Desde que iniciamos a quarentena com a declaração do Estado de Emergência, o dia do homem não é o mesmo. Os hábitos mudaram. E as saudades aumentam.

Já não há fim-de-semana. Os dias são iguais. A rotina mantém-se já lá vão dois meses. E hoje o cenário não é diferente. Apesar de ser sexta-feira não muda nada. Não há lugar para ir. Os centros de convivência pública estão encerrados e a teia (ratasi) passa a sua classe. Quando termina o horário laboral o caminho já não tem várias curvas; vai directamente para casa.

Esta doença de Coronavírus devia deixar lições impressionantes ao ser humano. Agora as crianças sabem que é possível ter os pais juntos a mesa nas horas de partilhar o pão de cada dia. Sabem que a sexta-feira não é um dia cujo trabalho se prolonga mais para 22hs ou 23hs. As crianças já sobem ao colo da mãe, aos ombros do pai e com eles brincam.

Mas nem todos gostam dessa brincadeira de ficar em casa. Kumphwa Lukhu é funcionário público. É daqueles homens que a sexta-feira era verdadeiro dia do homem. Antes da pandemia, saia pelas 6hs da manhã e só regressava pela tarde de Domingo para trocar de roupa. A boa bem nutrida de comida não escovada e a roupa cheirando nicotina (epotthi).

Com o Coronavírus tem poucas chances de circular em casas alheias sem lhe afugentarem para sua casa. Pois, a ordem é “ficar em casa”. No seguimento dessa ordem, ultimamente procura ser um marido fiel e pai responsável. Quando termina a sua jornada de trabalho trepa o chapa-cem que lhe leva a sua casa e sem tardar sente o grito afável dos seus filhos. Na última sexta-feira, quando saía de casa, Loyde uma da filha disse: até logo pai.

Num tom murcho de quem diz não adianta nada, respondeu: “Eyahhh! Este é uma um dia desigual. Mas vai chegar mais um tempo em que serei homem”. Lucília é sua esposa. Estava na varanda acompanhando o desabafo do marido e não aguentou com o desapontamento e disse: “assim que chegas cedo todos dias em casa não te sentes homem completo?” e mais…

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