MORREREMOS VÍTIMAS DE NOSSA NEGLIGÊNCIA!

MORREREMOS VÍTIMAS DE NOSSA NEGLIGÊNCIA!

Por Bento Paúa

Desde o início deste ano, vários países têm-se deparado com o desafio de lidar com esta nova doença extremamente fatal, a covid-19. Há países que por causa desta doença tiveram que fechar todas as suas actividades para poder confinar as pessoas em suas casas e protege-las da contaminação. Países muito mais ricos que o nosso entraram em crise e, além de verem suas economias baixarem, perderam e ainda perdem milhões de pessoas. O facto é que ainda não existe medicamento eficaz para controlar de forma definitiva a pandemia e enquanto isso não acontece, quem se contamina coloca a sua vida num risco real: a morte.

Desde que a doença chegou a Moçambique nosso medo e nossa falta de confiança com as autoridades levaram-nos a cometer diversos erros. Começamos por não acreditar na existência de casos em Moçambique, depois passamos a duvidar da possibilidade de ter havido óbito, para chegarmos ao mais grave que é o não cumprimento das medidas de protecção recomendadas pelos cientistas. Assim, nas ruas da nossa cidade, por exemplo, é notória uma negligência total. Como se não tivesse acontecido nada e se não houvesse sequer um perigo imposto por esta doença, diversas pessoas andam sem mascaras, colocando-as apenas diante das autoridades; outras pessoas ficam aglomeradas nos locais de negócios da cidade, nas sentadas da bebida tradicional dos bairros, nas conversas familiares, nas festas de aniversário supostamente inadiáveis, nos funerais sempre massivos, etc. Como se o simples aglomerar-se não bastasse, vemos pessoas que, animadas pelo calor de estarem juntas, repartem alimentos, partilham copos e pratos com que come e trocam objectos com que se selecciona algum bolinho ou algum petisco nas ruas.

Ao sabor dessa traiçoeira normalidade, as crianças não são protegidas. Nas ruas são elas que sem máscaras ou com estas mal colocadas fazem os pequenos negócios e compras nos mercados, entrando em contacto com dezenas de pessoas por si desconhecidas. Nos bairros, as brincadeiras das crianças como a neca, o futebol e o jogo da banana continuam a ser praticados na normalidade. Paradoxalmente, quase ninguém está disposto a deixar seu filho ir a escola tal como o governo prevê. Todos resistem a ideia de retoma das aulas alegando o perigo de aglomerações que possibilitem a contaminação de seu filho, mas ao mesmo tempo, todos oferecem liberdade para as crianças se aglomerarem e brincarem no bairro normalmente.

Há erros e negligências que depois de cometidos nos oferecem a chance de nos corrigir, no entanto, não há certeza sobre uma segunda oportunidade para um indivíduo infectado corrigir o passo errado que deu, corrigir o abraço e o beijo que deu a uma pessoa que o terá contaminado. Sua recuperação depende da sorte. Com efeito, a discussão agora não é sobre se existe ou não a doença, nem é sobre quais são as provas de sua existência, muito menos sobre onde está a pessoa que está contaminada, como se especulava no passado. Isto os factos se encarregam todos os dias de dar a resposta. A discussão agora é mais séria e é: o que fazer para não ser contaminado?

É justificável a descrença que se cultiva sobre as informações oficiais, afinal de contas fomos habituados pelos nossos dirigentes à mentira em questões que deveriam ser sérias; também é justificável o cansaço e o desconforto que se pode ter ao se tapar as narinas e a boca com a máscara. Contudo, em certa altura, diante de constrangimentos que atravessamos, precisamos de tomar a consciência e fazer uma decisão séria na escolha entre o incómodo da máscara e da falta de socialização e o risco real de vida que corremos se não nos precavermos. Diante da incerteza sobre uma doença, entre uma auto-protecção exagerada e um comportamento de risco motivado pelo preconceito, prefiro a primeira opção. E mais não disse!

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