NÓS APENAS CUMPRIMOS ORDENS!

HI NINTTHARIHELA ORUMMWÁ

Por Deolindo Paúa

Diferente dos países de regime de ditadura, nos países democráticos a polícia usa a força em casos de extrema necessidade. Seu trabalho, por isso, baseia-se no diálogo para convencer cidadãos a agirem com civismo e segundo a ordem estabelecida. Assim, sua formação é mais de domínio de ferramentas legais e de fundamentos de direitos humanos para saber dialogar do que para agredir, ferir ou matar cidadãos indefesos. É assim que devia ser a nossa polícia!

Há dias, comentando o escândalo que envolveu instrutores que engravidaram suas alunas no centro de formação da polícia, um jurista dizia que os membros da nossa polícia são instruídos a ter uma obediência canina. Fiquei depois a pensar num cão que não pergunta, não reclama, faz o que o seu dono mandar. Obedecer a ordens sem avaliar nem questionar equipara-se, de facto, a obediência de um cão.

Quando um cidadão é retido de forma violenta e desrespeitosa na rua por não ter BI, quando alguém é baleado apenas por dar uma resposta legal à acção da polícia ou porque apenas não cumpriu um decreto presidencial não trajando a máscara, quando uma casa por qualquer motivo é invadida pela polícia sem respeito nem um mandado do tribunal, isso denota falta de domínio das regras básicas de tratamento de cidadãos num país democrático.

O mais grave é notar que o agente não pensa por conta própria, é marionete porque ao ser questionado sobre sua atitude não se envergonha de dizer: “apenas cumpro ordens!”, mesmo que tais ordens sejam ilegais. Sem prejuízo da disciplina de obediência (mas não cega) que caracteriza as instituições paramilitares, julgo ser idiotice violentar pessoas, invadir residências, agredir cidadãos e até mesmo matar sem saber os motivos pelos quais tem que levar a cabo tais actos. A quem realmente beneficia a obediência canina da nossa polícia tal que ninguém se preocupe em mudar seu comportamento?

É por obedecer ordens sem avaliar que matam cidadãos inocentes; é por essa obediência dita canina que nas vias públicas a extorsão a automobilistas tornou-se normal; é por essa obediência cega às ordens que as instruendas se entregam, apenas para cumprir a vontade de seus chefes ou instrutores, mesmo que para isso percam a sua dignidade como mulheres; é por obedecer ordens de forma apática que nem sequer são capazes de exigir um serviço com dignidade que se recomenda e com o salário segundo o risco do seu trabalho.

Enquanto cumprem ordens, sua vida vai-se enterrando na lama da imoralidade, da pobreza e do isolamento porque aqueles a quem corrompem, violentam e baleiam durante a jornada de trabalho, no final do seu turno, no bairro, são seus vizinhos, seus concidadãos. Todos nós cumprimos ordens em qualquer âmbito social. Mas cumprir ordens ilegais, imorais e criminosas continua sendo repugnável e vergonhoso!

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