Crónica do Dia – PRECISAMOS DE UM PAÍS SEM VIOLÊNCIA

Por Deolindo Paúa

Desde o início da colonização fomos ensinados que a sociedade e as pessoas dentro dela educam-se pela violência. Assim crescemos achando que o bom homem constrói-se do medo imposto pela agressão.

Nossa história é repleta da pedagogia da violência: O chamboco nas plantações e minerações coloniais ensinava a trabalhar melhor. A tortura e a cadeia ensinavam a não falhar no pagamento do musokho.

Até o projecto de libertação seguiu o caminho da guerra, o da violência. Mesmo depois da independência o novo Estado moçambicano foi fundado sob o terror da violência. Em nome da fundação do Estado socialista, assistimos a torturas e execuções públicas levadas a cabo até diante de crianças, com a ideia de ensinar que quem erra na vida deve ser violentado ou mesmo morto. Durante a guerra dos 16 anos as pessoas foram obrigadas a assistir a execução dos próprios filhos, dos próprios maridos, conhecidos, etc. Aliás, o próprio sistema de educação tinha professores violentos que ensinavam as crianças na base da violência. Na educação, a lógica era a de que para saíres da ignorância, para saberes ler, escrever e calcular tinhas que ser auxiliado por bofetadas do professor que refrescavam a inteligência.

Em todo este processo a violência tornou-se institucional, oficial, social, cultural e, pior de tudo, normal. Hoje, não é de admirar que apesar de todos os direitos humanos proclamados na lei, tenhamos uma polícia que violenta as pessoas como medida correctiva. Não é ao acaso que os problemas familiares e de casal se resolvem à pancadaria. Não é casual o comportamento das pessoas nos bairros, que ao capturarem um suposto delinquente o violentam e lincham, mesmo sem terem a certeza se foi realmente ele o autor do acto.

É a nossa história que nos ensinou a pedagogia da violência. Dos exemplos vividos e assistidos durante longos anos nossa consciência gravou a violência como caminho para as soluções. Fomos e ainda somos tão violentados que agora pensamos que violência é norma e solidariedade é fraqueza. Por isso sempre nos violentamos, umas vezes fisicamente, outras verbalmente. Os insultos, a mentira, a difamação que dirigimos aos outros são as novas formas de violência física que insistem em matar os outros.

Entretanto, apesar de a história ter nos insistido nesse ensinamento, não podemos correr o risco de achar que isso é recomendável. Temos que admitir que de entre vários caminhos de construção social, o da violência é o mais distante da paz, da justiça e da harmonia social. As Igrejas e as escolas precisam de formar uma nova pedagogia, que introduza na mente dos moçambicanos a ideia de que a violência repele a harmonia e a solidariedade constrói pontes. Precisamos de uma civilização cujas relações humanas são baseadas na cultura da não-violência.

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