Crónica do Dia – REFUGIADOS DE NENHUMA GUERRA!

REFUGIADOS DE NENHUMA GUERRA!

Por Bento Paúa

Não sei se com alguma razão ou não. A verdade é que alguns estudiosos entendem que temos hábito histórico de gestão ineficaz de crises! Quando começou a guerra dos 16 anos a rejeitamos, fingimos que não havia, para depois admitir sua existência; quando a Renamo recomeçou os ataques numa nova guerra finais de 2011, negamos ser verdade, até que mais tarde, depois de produzir vários mortos, feridos e deslocados, aceitamos que ela realmente existia e partimos para o diálogo. Quando houve, em 2015, os primeiros relatos sobre a existência de dívidas escandalosas e ilegais contraídas pelo último governo, nossa primeira posição foi rejeitar sua existência para depois de elas instalarem crise económica, financeira e de reputação do nosso país admiti-las. Recentemente, em meados de 2017, quando começou a guerra dos insurgentes em Cabo Delgado adoptamos a mesma estratégia, tentamos esconder sua existência: Não há guerra em Cabo Delgado!

Talvez seja uma estratégia do governo na gestão de conflitos militares. Mas para o cidadão civil, dói o coração quando a aparente falta de funcionamento dessa estratégia de negação do evidente, resulta no sofrimento e na morte de centenas de pessoas. É desolador! Nosso orgulho doentio nos faz esperar mortes, ver aldeias destruídas, distritos ocupados e até mesmo a existência de refugiados para admitirmos conflitos.

As pessoas de Cabo Delgado e não só perguntam sempre: Estamos em guerra? Não! Pelo menos é esta percepção que se dá pelos gestores do Estado. E os refugiados? Haverá refugiados de um conflito como aqueles que não seja resultante de guerra? Contra toda a estratégia assassina de omissão de guerras, os factos indicam que alguns distritos de Cabo Delgado são inseguros. A província de Nampula testemunha nos últimos dias a chegada de pessoas que contra sua vontade, deixando suas casas, famílias e bens para trás, fogem de guerra. Uma guerra outrora resumida a acção de malfeitores. Enquanto uns: no luxo e na bonança, procuram um nome razoável para designar às barbaridades de Cabo Delgado, que não é guerra, outros: pobres e indefesos, procuram sobrevivência em outros lugares, desprovidos de assistência. Só um risco de vida real e irremovível induz um indivíduo a abandonar tudo e começar de novo noutro sítio.

É aceitável qualquer secretismo militar na gestão de um conflito; mas conveniências políticas que levam à perda de vidas por um conflito que deveria ter sido abordado à partida demonstram falta de sensibilidade. É uma atitude desumana não apenas de quem ataca, de quem mata, mas também de quem devia proteger evitando, cedo, quando podia, esses massacres. Alguém afirmou certa vez que a melhor forma de enfrentar um inimigo é aceitando que ele existe. Não temos guerra em Cabo Delgado, mas temos refugiados de nenhuma guerra!

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