SOMOS ESCANDALOSAMENTE BARATOS!

SOMOS ESCANDALOSAMENTE BARATOS!

Por Bento Paúa

No passado nós africanos éramos unidos, tão caridosos e prestativos que entre nós ninguém podia morrer a fome ou incorrer a algum perigo sem que os outros o ajudassem. Não éramos egoístas, por isso nossos laços de familiaridade se alargavam além do sangue. Até os vizinhos eram família, conterrâneos eram gente por preservar, etc. Tudo mudou desde que fomos colonizados. O drama da colonização não está apenas no facto de termos sido explorados e usados como mão-de-obra grátis, mas também e sobretudo na destruição de nossos valores que justificavam nosso socialismo: aprendemos a ser egoístas e baratos, novos valores sociais que o capitalismo vem solidificando. A satisfação da ambição pelo dinheiro tornou-se o nosso maior foco. Pelo dinheiro somos capazes de tudo.

Há dias, os órgãos de comunicação nos falaram de um homem que para ter 12 mil meticais teve que matar e esquartejar os próprios dois filhos menores de sete anos; falaram-nos também de um homem que para receber 25 mil meticais matou o próprio irmão para extrair dele os órgãos comercializáveis; por dinheiro todos os dias nos falam de ladrões que invadem casas, matam, violam, apenas para se apoderar de simples bens que muitas vezes seu valor não passa de 30 mil; para ganhar dinheiro vemos gente que recorrendo a magias e ao feitiço matam os próprios pais; pela ambição vemos jovens matarem os próprios avós culpando-os de serem fonte da sua desgraça. Vemos pessoas com problemas de albinismo serem perseguidas. Em suma, estamos numa sociedade onde a apetência pela riqueza compromete nossos laços; o sucesso financeiro induz-nos a praticar actos que outrora nem de longe seriamos capazes de levar a cabo. Infelizmente nosso destino e o dos mais fracos é ditado pelo grau da nossa ambição económica. Estamos cada vez mais distantes de ser humanos e próximos aos animais selvagens.

Para sermos humanos, precisamos de abandonar a lógica de um sucesso dependente do prejuízo e da morte dos outros. Toda a ciência da riqueza já demonstrou o suficiente que o sucesso depende do trabalho. O preço que marcamos pela morte dos outros ou pelo seu prejuízo, o marcamos também sobre o quanto nós mesmos valemos, mesmo vivos.

Enquanto continuarmos assim, continuaremos também a ser, aos olhos dos outros não africanos, a ser um povo selvagem, não civilizado e, sobretudo de baixo custo para seus serviços e destruiremos o pouco que resta sobre o nosso socialismo do passado e nosso humanismo outrora inquestionável. A vida humana não se vive de forma singular, ela acontece sempre em comunidade, junto dos outros, em companhia. Se tivermos todos que matar ou prejudicar alguém para termos dinheiro, quem poderá sobreviver? Ou melhor, que sentido humano fará nossa riqueza vivendo sozinhos?

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